Cacha Pregos Comum no Nordeste, trata-se de um desvio linguistico. No português arcaico é "Cacha Pregos", nome de um vilarejo da Ilha de Itaparica, bahia, assim chamado devido a sua atividade pesqueira. "O verbo cacher quer esconder e veio do francês cacher, que, por sua vez, tem origem no latim coactare", diz Americo Venâncio Filho, linguista da Universidade Federal da Bahia. Cacha Pregos seria algo como "Esconde - Pregos", pois os peixes-pregos que entram no rio jaquaripe não conseguem voltar ao mar por causa do maré baixa. Como Cacha Pregos ficava longe da capital, salvador, os pescadores que iam até lá o transformaram em sinônimo de Lugar distante. Cacha Pregos é uma pequena vila de pescadores localizada no município de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, no estado da Bahia. A Praia esta localizada do outro lado da Ilha de Itaparica em relação à cidade de Salvador. É possível chegar através de uma ponte (Ponte do Funil) que liga o município de Vera Cruz ao município de Jaguaripe no continente, ou tomando transporte marítimo a partir de Salvador e seguindo pela estrada a partir do terminal marítimo de Bom Despacho. Cacha Pregos tem três ruas principais. Uma que é beira-mar, outra central e outra que é próxima do mangue, também conhecida como Rua do Porto. A Rua do Porto está sempre cheia de pequenas embarcações ancoradas. Nela também fica localizada a famosa Praça do Pau-Mole. Um pequeno conjunto de mesas e assentos de cimento na qual os pescadores idosos e outros moradores reúnem-se para jogar cartas ou dominó. A rua próxima do mar dá para uma praia tranquila, quase sem ondas, pois localiza-se numa grande enseada. Em dias claros é possível avistar a ilha na qual situa-se Morro de São Paulo.
Uma aventura em Cacha Pregos Em recente papo em Mar Grande, nosso amigo Gouveia perguntou se eu não gostava de Cacha Pregos, pois nunca tinha me visto por lá. Para surpresa dele, contei que guardava as melhores recordações daquele recanto paradisíaco, especialmente do final dos anos sessenta, por volta de 67 a 69. Aproveitando a ocasião, indaguei do estimado amigo, se o mesmo tomara conhecimento da chegada do primeiro veículo em Cacha Pregos, um Jeep Willys, ano 57. Pois bem. O amigo irmão Alfredo Ruas, procurando unir o útil ao agradável, resolveu no verão de 67/68, levar um Jeep americano que possuía em salvador para a ilha. Vale lembrar que não existia ferry e a única estrada era a ligação Itaparica - Mar Grande. Por suguestão de um amigo de Mar Grande, trouxera o Jeep com o objetivo de curtir o verão e ao mesmo tempo ir buscar peixe em Cacha Pregos para vender em Mar Grande ou Itaparica. Segundo o amigo, a despesa do veraneio, inclusive combustível, estava garantida e, com alguma sorte poderia até sobrar alguma coisa, o que na verdade nunca ocorreu. A primeira dificuldade surgiu na Companhia de Navegação Baiana, por ocasião do embarque no navio MASCOTE, (lembram?). Ao tomar conhecimento do valor cobrado pêlos estivadores para embarcar o Jeep no Mascote, através de uma improvisada prancha de madeira, Ruas teve um troço, deu chilique, queria brigar com todo mundo. O preço era quase o mesmo valor do Jeep. Não obstante, como sempre foi uma pessoa determinada e aguerrida, não se deteve e levou seu intento adiante, mesmo sabendo que o desembarque em Itaparica, na velha ponte em frente ao Hotel Icaraí do saudoso Samuel, iria custar o mesmo preço. Para a minha felicidade se aproximava o verão e o convite para participar da aventura veio a calhar. Com os irmãos Ruas, Alfredinho e Toninho, rumamos para Cacha Pregos. De Itaparica seguimos para Mar Grande, pela única estrada que existia. Em Mar Grande, após um "checap" no Jeep, partimos para Ilhota e descemos na praia no local onde hoje se encontra o Galeão Sacramento. Chegando na Barra do Gil, saímos da praia e passamos na caieira da fazenda Galvão, em seguida retornamos à praia, rumando direto para Cacha Pregos. Em Barlinque ficávamos na dependencia da maré para atravessar o rio. Superado o último obstáculo, Chegamos finalmente em Cacha Pregos e o povo assustado saiu de casa para ver a novidade. Muita gente nunca tinha visto um carro. Os meninos corriam atrás do Jeep tentando alcança-lo, tal e qual como ocorre com os cachorros atrás dos carros hoje, notadamente na periferia e interior. Foi uma festa só. Em Cacha Pregos não se falava em outra coisa. O Alfredo comunicativo com sempre foi, logo cuidou de fazer amizades e arranjar namorada, para os três. Estávamos no parraíso. Quando anoiteceu, nos demos conta que não existia hotel, pensão ou pousada. Como Alfredo tinha feito contato com "Amor" e "Xebeu", figuras extraordinárias e grandes pesacadores, fomos convidados a passar a noite na "geladeira", uma Barraca de palha na praia, onde os pescadores guardavam o peixe em grandes caixas com gelo, até o momento do emgarque para salvador. Como o veículo ficava guardado na "geladeira", quando o frio apertava, corriamos para debaixo do Jeep. A hospedagem era tão boa que ficamos ali grande parte do verão. O café da manhã era uma delícia; cuscuz, mingau, beijus ovos de galinha da terra, aipim, fornecido por uma senhora distinssima, D. Alzira e suas filhas, duas lindas morenas casaidoras. Por pouco não sai casamento, não foi Alfredo? O almoço não era diferente. Sempre a base de frutos do mar e às vezes, tinhamos que escolher entre três e quatro convites, com muito jeito prá não ter ciúmes. À noite, o bate papo com as veranistas e a indispensável seresta, com Alfedo saltando a voz, acompanhado por Antônio Matos ( grande violão), vindo de Mar Grande. Como ninguém é de ferro, vez por outra passávamos no bar de Loiô (grande figura) ou no boteco do Arivaldo, (por onde anda o amigo?), que preparava uma batida pra ninguém botar defeito: pitanga, limão e mel de uruçu. A única queixa de Alfedinho era o pão. Ficávamos na padaria esperando o pão sair, porque só dava para comer quentinho. Se esfriasse virava uma bucha (lembra compadre?). Como os barcos de peixe demoravam alguns dias para retornar, ficávamos naquele bem bom, esperando o mar pegar fogo pra comer peixe frito. Quando traziamos peixe mara Mar Grande, que era vendido ali mesmo ou remetido para Salvador, não podíamos retornar logo para Cacha Pregos, vez que o prefeito (se não me falha a memória Livio Galvão) sempre requisitava o Jeep, que acabou fazendo serviço de carro mortuário, viatura policial, etc. Uma vez foi requisitado para buscar o corpo de uma senhora que falecera na sessão espirita de Caipó no Buraco do Boi e o percurso foi feito pela praia, por cima das pedras. foi o primeiro veículo que chegou no Buraco do Boi (viu Nascimento!). De outra feita, a viatura, perdão Alfredo, o Jeep foi buscar umpreso em Matarandiba, porem ficou em Jiribatuba, sendo que Alfredo e o delegado seguiram de barco até Matarandiba, a fim de trazer o cidadão que assassinara a esposa (Bonfim, pergunte aos mais velhos). Essa história fica para outra oportunidade. O problema era quando Alfredo ia cabrar o serviço. O máximo que conseguia era o combustivel, mas era divertido. Portanto, amigo Gouveia, as recordações de Cacha Pregos são inesqueciveis, uma vez que ali passamos, com certeza os melhores momentos de nossa juventude. Abrace aqueles amigos maravilhosos. Esse fato foi relatado por Gil Ruy Lemos Couto no Livro do aniversário de 37 anos de Vera Cruz.
Veja Bem o Que é a Natureza Quando começou a crescer essas terras nas cabeceiras da ponta da Ilha de Itaparica, era na enseada da ponta de Armação, que pertence a Berlinque. Nessa enseada existia um extenso manguezal até a beira da praia que era a costa do Berlinque, ponta da Ilha de Itaparica. Na continuação dos tempos com os temporais na região de Nazaré das Farinhas, Valença e Jiquiriça, os rios destas localidades transbordavam, trazendo para a costa do Berlinque tudo que encontravam: árvores, galhos secos e sedimentos de um modo geral. Com isso aquela área começou a ser entulhada, o vento do baixo sul jogava areia, ampliando a parte da praia atual. Os mangues da enseada da Armação invadiram as águas salgadas, criando lama. As sementes dos mangues começaram a se espalhar, criando um grande rio com um extenso manguezal, que vai desta enseada até as terras do Catu. Desde a época, cheio de mariscos, obra da natureza. E quanto mais dava enchentes nos rios que desaguavam próximo a essas terras, mais sujeiras e sedimentos encostavam. Nesta costa davam-se de tudo, até canoa vinda de Belmonte, arrastadas pelas correntes de águas. A ponta da Ilha de Itaparica a crescer para o lado do Catu, o rio salgado no meio. Essas terras que hoje vocês estão morando, tudo isso já foi mar. A natureza construiu essas terras e o grande canal, espécie de viveiro natural de grandes quantidades de peixes de todos os tipos e qualidades, inclusive muitos tubarões. Essa terra que a natureza construiu não possuía dono nem morador. Os primeiros visitantes foram da Barra dos Garcez, descendentes dos índios que habitavam nas proximidades de Jaguaripe. Esses pescadores utilizavam muito esse novo pedaço de terra e tinham por costume levar todo o pescado para a cidade de Jaguaripe, onde era comercializado. O Primeiro Morador Um belo dia apareceu um cidadão correndo a costa até chegar a ponta da Ilha de Itaparica. Este entrou em uma abertura da mata, descobriu um rio coberto de mangue já com muito marisco. Voltou na mata, avistou dois pés de limoeiro carregados de limão, fazendo lama no chão. Ele parou, pensou que naquele lugar seria a sua moradia, debaixo dos limoeiros. Passou a noite ali e no outro dia começou a construir uma barraca com as tábuas que davam na praia. Para se alimentar mariscava as ostras, siris, aratus, chumbinhos, sururus e outras espécies de crustáceos abundantes do manguezal. Um dia ele saiu a correr a praia chegando até a ponta das terras. Quando retornou encontrou duas canoas de rede. Cumprimentou os pescadores que eram da Barra dos Garcez e anunciou ser o dono daquelas terras. Seu nome era Cristóvão Marambaia. Desde aquele dia os pescadores ficaram cientes da posse das terras. Cristóvão chamou a área onde fez a sua moradia de Limão, devido a presença dos dois limoeiros. Marambaia conseguiu plantar varias muda de coqueiro e outras espécies de plantas para a sua alimentação. Para Cristóvão Marambaia só faltava agora uma companheira. Um dia foi ao rio, em uma parte mais distante, e nas cabeceiras a mariscar encontrou uma mulata muito bonita, de boas feições. Cristóvão rapidamente se aproximou da bela mulher e começou a falar de sua vida, que era dono daquelas terras, morava sozinho e queria muito arranjar uma companheira para compartilhar o seu viver. Depois de algum tempo de conversa ela aceitou o seu convite e no outro dia Cristóvão foi a sua busca, mas a mesma já vinha ao seu encontro e viveram dias felizes. Era um tempo de muita fartura. Cristóvão agora acompanhado de sua mulher aumentou a plantação, porém faltava água para irrigar a terra, pois somente com a água da chuva não dava para desenvolver as plantas. Pensou então em construir uma casa melhor de taipa e de cavar um poço para a sua utilização. Quando terminaram chamaram os pescadores da Barra dos Garcez e suas famílias e fizeram uma grande festa. Esse primeiro poço foi construído próximo a uma lagoa, onde os pescadores da Barra dos Garcez costumavam pegar água. Certa vez um filho de um dos pescadores de apenas 3 anos caiu no poço e morreu. Depois de um tempo sem utilizá-lo por causa da morte do menino, resolveram fazer a limpeza e voltaram a utilizar. Passou então a ser chamado de Buraco do Anjinho. Um belo dia saíram os dois pela praia a conhecer a ponta da ilha de Itaparica. Observavam a saída da água do rio na vazante da maré. De lado a lado terras, a barra falsa na zona sul, toda fechada de bancos de areia. O canal entre a Barra dos Garcez e as novas terras, seguindo em direção ao rio Jaguaripe era um “mar de Espanha” de peixes de todos os tipos e qualidades, existiam também muitos tubarões que entravam do alto mar pela barra falsa em busca dos cardumes de tainha. Existiam também cardumes de pititinga que chegavam a encalhar na praia fugindo de peixes grandes. Nas lages de pedra do lado do Catu muitas carapebas. Era fartura de todos os tipos de peixes no canal dessa região. A Chegada do Pescador Português O dono das terras deu consentimento aos pescadores a fazerem seus paeiros para guardarem as suas redes. O casal morador daquele lugar teve um filho. O garoto já crescido quando brincava na praia avistava sempre uma barca nas águas de fora, pescando peixes grandes para a retirada do óleo para a utilização na construção das igrejas. A história de um grande pescador português, um herói na pescaria, em uma embarcação toda equipada. Sozinho naqueles tempos em que os frades estavam construindo muitas igrejas, com massa a base de óleo de peixe, na falta do óleo de baleia. Esse português que morava na localidade de Manguinhos fez um contrato com os frades para a produção de óleo de peixe. O português saia sozinho a pescar. A barca tinha um guindaste na proa e um guincho para subir os peixes grandes, acompanhado também de duas ancoras grandes para evitar de ser arrastados pelos peixes. Saia dos Manguinhos a pescar na zona sul. Certa vez depois de dois dias de pescaria, já com 4 peixes grandes na barca, foi surpreendido por uma tempestade a noite. Com o mar agitado e sem saber o seu destino acabou se encalhando em uns bancos de areia. Ainda sem saber onde estava, considerando-se totalmente perdido, lançou uma das ancoras ao mar com um grande correntão. Quando o dia amanheceu de maré de enchente a tempestade piorou, o mar muito agitado em cima dos bancos de areia e a única coisa que o português podia fazer era pedir a Deus a salvação. Os pescadores da Barra dos Garcez avistando a embarcação resolveram prestar socorro com duas canoas. Quando os pescadores chegaram próximos a embarcação, não puderam encostar devido a fúria do mar nos bancos de areia. Gritavam de suas canoas para que o português livrasse a barca das amarrações. Depois de muito esforço e fé em Deus, o português conseguiu se livrar das amarras e com a força do mar e dos ventos a embarcação foi lançada para fora dos bancos de areia, podendo então ser resgatado da forte tempestade. Quando conseguiram chegar à praia, o português abriu os olhos e percebeu que tanto ele quanto os pescadores estavam salvos. Descendo do barco pegou um pouco de areia, fez o sinal da cruz agradecendo a salvação com a força de Deus e com a ajuda dos colegas irmãos da pescaria. Colocaram a embarcação para dentro do rio que era um lugar seguro. O nome do português era Arkileu e na sua embarcação não lhe faltava nada: água, vinho, conservas, alimentos etc. Ele gostou muito do lugar, uma boa praia, um rio seguro e decidiu que ali passaria o resto de sua vida. Falou com o dono das terras pedindo autorização para construir uma cabana. O dono das terras deu consentimento para ele escolher um lugar para fazer a sua morada. O português escolheu um lugar que ficasse mais distante das águas do mar e do rio, o ponto mais alto de areia e construiu a sua cabana com os pescadores que lhe ajudaram a se salvar da tempestade. Terminada a construção fizeram uma grande festa. Crescimento do Arraial Depois da cabana toda pronta aparece o frade vindo de Itaparica a procura do português que estava desaparecido. O frade aproveitando a oportunidade renovou o contrato com o português para o fornecimento do óleo de peixe, visto que o óleo de baleia estava em falta. Arkileu satisfeito por poder voltar a trabalhar no seu ofício, contratou mais seis pescadores da Barra dos Garcez, preparou a embarcação e foi para o mar. Na primeira pescaria depois do acidente, nem saíram do canal para alto mar e conseguiram capturar 10 tubarões. Arkileu percebeu que faltavam mulheres para o trabalho em terra e pediu mais uma vez autorização ao dono das terras para trazerem algumas famílias para habitarem no novo arraial que se formava. As primeiras famílias do arraial são oriundas da Barra dos Garcez. As casas eram feitas de taipa, com o barro vindo do Catu e telhado de palha de pindoba. Durante 1 ano foram feitas em torno de 16 cabanas de taipa para os novos moradores. Foi feito também um barracão para guardar os vasilhames de óleo, bem ao lado da casa do português. Tinha uma amendoeira na frente e um grande mastro com 2 bandeiras. Pelo fato dessas casas estarem um pouco distante da praia deu origem ao nome da primeira rua da localidade que é a Recuada. À medida que o tempo passava precisava de mais gente para trabalhar com o pescado. O português começou a chamar pescadores de outras localidades como do arraial do Baiacu. Os novos habitantes passaram a ocupar a parte da praia com suas casas por dentro da mata salteadas uma das outras. Pelo fato das mulheres fazerem o trabalho de torcer os fios para fazer as redes com o fuso neste novo local, deu origem ao nome da segunda rua do arraial que é a Parafuso. A pesca no arraial crescendo, tanto em alto mar como no canal, o português enriquecendo e o arraial desenvolvendo. O dono das terras Cristóvão Marambaia falou com o português para batizar o primeiro filho, em uma das vindas do frade para pegar as barricadas de óleo de peixe. Ficou o português mais rico e mais prestigiado do que o seu agora compadre dono das terras e do arraial com 22 casas de taipa e telhada de palha. Cada dia que passava o movimento ia aumentando o número de casas crescendo, novos habitantes chegando de outros lugares com a fama de bom lugar de pescaria.
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